sábado, 20 de agosto de 2016

Discurso de São Bernardo de Claraval para a Segunda Cruzada

A assembleia foi convocada em Vézelay, pequena cidade de Borgonha. A fama de S. Bernardo, as cartas dirigidas pelo Papa a toda a Cristandade, fizeram acorrer a essa reunião um grande número de senhores, de cavaleiros, de prelados, de homens de todas as condições


Vós o sabeis, vivemos num tempo de castigos e de ruínas; o inimigo dos homens espalhou por toda a parte, o sopro da corrupção; por toda a parte só vemos saques impunes. As leis da pátria e as leis da religião não têm mais força para reter o escândalo dos costumes e o triunfo dos maus. O demônio da heresia sentou-se na cátedra da verdade. Deus amaldiçoou o seu santuário. Vós todos que me escutais, apressai-vos em acalmar a cólera do céu e não imploreis mais sua bondade, com vãos gemidos; não vos mortifiqueis mais com o cilício mas cingi-vos de vossos invencíveis escudos. O barulho das armas, dos perigos, as dificuldades e as fadigas da guerra, eis a penitência que Deus vos impõe. Ide expiar vossas faltas com vitórias contra os infiéis, e que a libertação dos santos lugares seja o nobre prêmio do vosso arrependimento.

O Deus do céu começou a perder a terra santificada com seus milagres, consagrada com seu sangue, terra de salvação onde apareceram as primeiras flores da Ressurreição. Hoje esses santos lugares, enrubescidos pelo Sangue do Cordeiro sem mancha, estão entregues aos inimigos de nossa fé e foram nossos pecados que fizeram desabar essa tempestade sobre o santuário da religião! Se vos viessem anunciar que o inimigo acaba de entrar em vossas cidades, que ele arrebatou vossas esposas e vossos filhos, profanou vossos templos, quem de vós não correria logo às armas? 

Pois bem! Todos esses males e outros ainda muito maiores aconteceram; a família de Jesus Cristo, que é a vossa, foi dispersada pela espada dos pagãos; bárbaros destruíram a morada de Deus e dividiram a sua herança. Que esperais para reparar tantos males e para vingar tantos ultrajes? Deixareis que os infiéis contemplem em paz as destruições e os saques que fizeram na casa do povo cristão? Pensai que seu triunfo será um motivo de dor inconsolável para todos os séculos e de eterno opróbrio para a geração que o sofreu. Sim, o Deus vivo me encarregou de vos anunciar que castigará a todos os que não o defenderem contra seus inimigos. Todos, pois, às armas! Que santa cólera vos anime ao combate e que no mundo inteiro ressoem estas palavras do profeta: "Infeliz daquele que não ensanguentar sua espada!"

Se o Senhor vos chama à sua própria defesa, não acreditareis sem dúvida que sua mão se tornou menos poderosa: bastaria a Ele mandar doze legiões de anjos, ou dizer apenas urna palavra e seus inimigos seriam precipitados por terra. Mas Deus considerou os filhos dos homens e quer oferecer-lhes o caminho de sua misericórdia; sua bondade fez surgir para vós o dia do perdão. Ele vos escolheu para ser o instrumento de suas vinganças; a vós somente Ele quer ser devedor da ruína de seus inimigos e do triunfo de sua justiça. Sim, o Deus Todo-Poderoso vos chama para expiar vossos pecados defendendo sua glória e seu nome. 

Guerreiros cristãos, eis combates dignos de vós, combates, onde a vitória vos atrairá as bênçãos da terra e do céu, onde a morte mesma será para vós como outro triunfo. Ilustres cavaleiros, lembrai-vos dos exemplos de vossos antepassados que conquistaram Jerusalém e cujos nomes estão escritos no livro da vida. Tornai a cruz, cruz que por si mesma é pouca coisa, mas se a levardes com devoção, ela vos há de valer a conquista do reino de Deus.

O rei da França Luís VII aos pés de São Bernardo. Gravura de Gustave Doré, século XIX.

Todos os cavaleiros e barões aplaudiram a eloquência do abade de Claraval. Luís VII, vivamente comovido pelas palavras que acabava de ouvir, lançou-se na presença de todo o povo, aos pés de S. Bernardo, pedindo-lhe a cruz. Revestido desse sinal venerável, ele falou à assembleia dos fiéis para exortá-los a seguir seu exemplo.

FONTE: MICHAUD, Joseph-François. História das Cruzadas (vol. II). São Paulo: Editora das Américas, 1956. Páginas 234 a 237.

sábado, 30 de julho de 2016

Um dever cristão frente ao terror

Quando um sacerdote é assassinado pelo Estado Islâmico no altar, o Ocidente deve acordar


Considerações do Padre George William Rutler, da Igreja de São Miguel, em Manhattan (Nova York, Estados Unidos da América) 

Depois de outro ataque devastador do ISIS [sigla em inglês para Estado Islâmico do Iraque e Síria] na França, desta vez contra um padre de 80 anos, enquanto ele rezava a missa, a resposta não é só "não fazer nada". Como o racismo distorce a raça e sexismo corrompe o sexo - o mesmo acontece com o pacifismo: ele afronta a paz.

Dar a outra face é o conselho que Cristo deu no caso de um indivíduo quando moralmente ofendido: A humildade conquista o orgulho. Não tem nada a ver com a auto-defesa.

A Igreja Católica sempre disse que o desafio a uma força do mal não é apenas um direito, mas uma obrigação. Seu Catecismo (cf. #2265) cita São Tomás de Aquino: "A legítima defesa pode ser não somente um direito, mas um dever grave, para aquele que é responsável pela vida de outrem, o bem comum da família ou do Estado."

Um pai é culpado se não proteger a sua família. Um bispo tem o mesmo dever como um pai espiritual de seus filhos e filhas na igreja, assim como o estado civil tem como principal responsabilidade a manutenção da "tranquilidade da ordem" por meio da auto-defesa.

Cristo advertiu os apóstolos, como pastores, para terem cuidado com os lobos. Isso requer tanto a "esperteza das serpentes como a inocência dos pombos." Diminuir o dever moral de proteger a paz não usando a força quando necessário é ser inocente como uma serpente e astuto como uma pomba.

Isso não é a inocência - é ingenuidade.

São João Capistrano liderou um exército contra os mouros em 1456 para proteger Belgrado. Em 1601, São Lourenço de Brindisi fez o mesmo em defesa da Hungria. Como franciscanos, eles não levavam espada e cavalgavam para a batalha portando um crucifixo. Eles inspiraram os bravos generais e soldados que haviam reunido através da diplomacia astuta, com sua valente inocência.

Esta não é uma trivialidade obscura: Se não fosse por Carlos Martel em Tours em 732 e Jan Sobieski às portas de Viena, em 1683 - e certamente se o Papa São Pio V não alistasse Andrea Doria e Dom João em Lepanto, em 1571 - nós poderíamos não estar aqui agora. Nenhuma nação ocidental como as conhecemos - nem universidades, nem ciência moderna, nem direitos humanos - existiria.

No século IX, a longa fila de mártires de Córdoba disse ao califa omíada da Espanha Abd Ar-Rahman II que sua negação de Cristo era infernal, e que preferiam morrer a render-se. São João de Ribera (d. 1611) e Santo Alfonso de Ligório (d. 1787) repetiram a advertência de que o conceito de paz no Islã não exige co-existência, mas submissão.

Carlos Martel expulsa os maometanos da Europa Central. Pintura de Charles de Steuben, 1834-37

A dormência do Islã até tempos recentes, no entanto, tem obscurecido a ameaça que isso representa - especialmente a uma civilização ocidental que tem crescido flácida na virtude e ignorante de seus próprios fundamentos morais.

O atalho para lidar com a crise é negar que ela existe.

No primeiro dia da Convenção Nacional Democrata na Filadélfia, houve mais de 60 discursos, e, no entanto, nenhum deles mencionou o ISIS.

O vício destruiu inúmeras almas individuais, mas no declínio das civilizações, a fraqueza tem feito mais mal do que o vício. "Paz para a nossa época" é tão vazia agora como era quando Chamberlain foi para Munique e a honra foi permutada em Vichy.

Hilaire Belloc, que conhecia bem a Normandia e toda a Europa, disse em 1929: "Temos quase que certamente ter de considerar o Islã no futuro próximo. Talvez, se perdermos a nossa fé, ele vá ascender. Depois que a subjugação da cultura islâmica pela nominalmente cristã foi alcançada, os conquistadores políticos desta cultura começaram a notar duas características inquietantes sobre o assunto. A primeira era que a sua fundação espiritual se provou imóvel; a segunda, que a sua área de ocupação não diminuiu, mas pelo contrário, lentamente se expandiu."

O padre em Saint-Étienne-du-Rouvrary na Normandia, França, não foi o primeiro a morrer no altar - e ele não será o último.

Em sua velhice, o padre encarna uma civilização que foi traída por uma geração cujo hino foi "Imagine" de John Lennon - que não havia nem céu nem inferno, mas "acima de nós apenas o céu" e "todas as pessoas vivendo para hoje." Quando a realidade se intromete, ela só pode deixar ursos de pelúcia e balões no local de um massacre que chama de "inexplicável".


Homem toca Imagine após os ataques em Paris, no final de 2015.